domingo, 4 de agosto de 2019

Um semestre

A vida não era fácil, o curso era chato, mas a companhia era agradável. Foi a única época da vida em que eu realmente gostava de ir pra escola.

Eu raramente levava o caderno, só levava uma caneta no bolso. Uma vez uma professora me questionou sobre isso e eu disse que meu caderno tinha caído no bueiro. Evidentemente era mentira. Aliás, essa professora adorava a gente. Todos, na verdade.

Eram vários personagens engraçados naquela sala. A menina que não bebia água, o punheteiro, a cruz pesada, a moça "que não estava acostumada a pular a cerca", o "massacre da serra elétrica", a roqueira do funk...

E nós, o "Trio Al-Qaeda".

Aquilo já começo com potencial, algo que só eu sei. Mas não foi, nem de perto, o ponto alto.

Eu tinha 97% de presença, isso já diz muito.

Eu não copiava nada da lousa, mas sabia tudo, ao ponto de só tirar boas notas e de ser o cara que fazia os trabalhos em grupo do trio. O outro era quem trabalhava na época e quem comprava as bebidas (ótimas histórias com isso, inclusive) e o terceiro era quem levava o discman que ouvíamos de forma escamoteada durante as aulas.

"Vocês estão ouvindo música?"
*Sei que é comigo, mas olho pra trás, mesmo sabendo que não tem ninguém*
"Vocês dois mesmo, não adianta disfarçar."
"Tamo não, fessora!" (gritando, porque estávamos de fone)

Uma história de bebidas:
"Oi, moça, será que você pode levar esse corote na sua mochila e nos entregar dentro da escola?"
"Posso sim, mas eu quero uma dose."

Nesse dia a "massacre da serra elétrica" quase ferrou nosso esquema. Era um chá de bebê, dentro da escola e nós bebendo corote com guaraná. E não era esses corotes homoafetivos com sabor, era corote raiz, daqueles com 40% de teor alcoólico.

Também teve  a vez que bebemos cachaça destilada na hora pelo pessoal do outro curso.

A trincheira, a bolinha de papel inconveniente, o "patrão com benefícios", a chave de ligar computador, o martelinho, a câmera...

Estranho, o trabalho sobre CIPA, no auditório, eu lembro que fiz ele inteiro sozinho, mas não lembro se eu apresentei. Provavelmente não.

O erro que cometi foi ter largado o curso por ter começado a trabalhar, até hoje não sei porque fiz isso. Se seis meses foram tão marcantes, imagina como seria um ano e meio.

Nós três paramos, na verdade.

Um ano depois eles voltaram e eu fui no primeiro dia, entrei na sala e fingi que tinha reaberto a matrícula, mas, obviamente, já era outra turma. Na hora do intervalo eu fui embora e eles ficaram. Nunca mais pisei naquela escola, exceto pra alguns concursos.

Mal sabia eu o que me esperava naquele ano. Mal sabia eu que teria sido melhor ter ficado. Tanta da primeira vez quanto desta outra.

Daquela época só sobrou o conhecimento e as lembranças.

O trio? Não existe mais. Mas viverá pra sempre em nossa memória. Ou, ao menos, na minha.

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